KEN LOACH
Nascido em 17/6/1936, em Nuneaton (Warwickshire, Inglaterra), estudou Direito no St. Peter’s College, em Oxford, antes de trabalhar com uma companhia de teatro e ingressar na televisão, onde dirigiu uma série de documentários de cunho social. Após a estreia no cinema com Poor Cow (1967), dirigiu seu maior sucesso de público e crítica na Inglaterra até hoje – Kes (1970). Após um período de dificuldades e censura na TV inglesa, Ken Loach começou a melhor fase de sua carreira nos anos 1990. Com apoio do Channel Four, dirigiu uma sucessão de filmes premiados, como Agenda Secreta, Ladybird, Ladybird, Terra e Liberdade, Meu Nome é Joe e Ventos da Liberdade, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.
Avesso à Hollywood e à cultura das celebridades, Loach prefere explorar a sensibilidade ou experiência pessoal de atores não-profissionais ou sem projeção do que um astro ou ator famoso. Rejeitando o rótulo de “autor” e usando mais o sujeito “nós” do que o individualista “eu” em entrevistas, ele se mantém, há mais de quarenta anos, fiel a suas convicções políticas, permanecendo o cronista mais realista da classe trabalhadora no cinema.
CINEMA ENGAJADO
Por telefone, o cineasta britânico Ken Loach concedeu entrevista exclusiva para a 2001 Vídeo, e falou sobre À Procura de Eric, futebol e, é claro, política.
O projeto começou com Eric Cantona?
Cantona teve a ideia de fazer um filme sobre o relacionamento dele com um fã que acaba se tornando amigo e a produtora francesa Why Not me apresentou o projeto. Então, eu e Paul Laverty [roteirista do filme] nos encontramos com ele... Como somos fãs de futebol e de Cantona, um jogador brilhante, começamos a desenvolver o projeto. Paul esboçou a história e ele gostou.
De certa forma, Cantona é o primeiro astro que o senhor dirige. Como foi trabalhar com ele?
É verdade, Eric é o primeiro. Muitos dos atores com quem trabalhei ficaram famosos somente depois que trabalharam comigo [Robert Carlyle, por exemplo]. Foi muito bom trabalhar com Eric Catona: ele tem ótimo senso de humor, sabe brincar com sua imagem pública e como trabalhar em cooperação, algo que certamente aprendeu no futebol – jogar pelo time.
Fale sobre sua relação com o futebol.
Não sou um fã do Manchester United [Ken Loach torce para o Bath City FC], não é o meu time, mas todo mundo era fã de Cantona na época em que ele jogou na Inglaterra. Ele sabia comunicar a alegria do futebol por meio de sua postura e performance dentro de campo.
É verdade que o senhor e equipe esconderam do ator Steve Evets [o protagonista Eric Bishop] que Cantona interpretaria ele mesmo e dividiria cenas com ele?
Sim, nós queríamos surpreendê-lo quando ele visse o Cantona pela primeira vez, pois Steve não o tinha visto pessoalmente ainda e não sabia que ele estava no filme. Então, escondemos Cantona atrás de uma cortina e fomos filmar a cena. Quando ele apareceu pela primeira vez no quarto, Steve estava olhando o pôster em tamanho real na parede e levou um grande susto – a reação que queríamos. Gostamos de trabalhar o elemento surpresa com o elenco.
O filme marca mais uma parceria do senhor com Paul Laverty [roteirista de, entre outros, Pão e Rosas, Meu Nome é Joe e Ventos da Liberdade].
Somos grandes amigos há muito tempo, acho que dividimos muitas coisas em comum – como o
mesmo entusiasmo e visão política. Estou muito feliz com a parceria, é muito bom ter alguém para compartilhar ideias, além disso, ele é muito mais jovem que eu [Loach tem 73 anos e Laverty, 52] - isso ajuda também.
Antes da consagração da crítica nos anos 1990, o senhor enfrentou muitas dificuldades na década de 1980. Fale um pouco sobre o período.
Foi uma época muito difícil para o Reino Unido porque foi a década de Margaret Thatcher, uma política de extrema direita que atacou sindicatos, fechou fábricas, ou seja, tinha uma política muito
agressiva contra a classe trabalhadora. Com reflexos até hoje... Tony Blair e Gordon Brown [atual primeiro-ministro britânico] continuam as mesmas ideias. Mas os anos oitenta foram os piores, você não podia ter ideias contrárias às de Thatcher, senão era censurado...
À Procura de Eric mostra um grande senso de solidariedade. O senhor acredita que o cinema ainda é capaz de mudar o mundo – ou ao menos o indivíduo?
Bem, eu realmente não sei... Um filme não é um movimento político, não é? É apenas um filme, mas pode tomar parte no debate público, quero dizer, pode forçar pensamentos e ter uma pequena influência nas pessoas que o assistem.
Seu trabalho anterior, Mundo Livre [ainda inédito no Brasil], tratou de temas urgentes, como a neoliberalismo, o livre comércio e a imigração ilegal. Qual sua opinião sobre a imigração, um tema delicado cada vez mais presente no cinema europeu?
Acho que os europeus são hipócritas em relação à imigração. De um lado, empregam os imigrantes porque eles são baratos e vulneráveis, assim podem explorá-los sem as exigências dos trabalhadores ingleses; e, de outro, há a imprensa, que os ataca porque eles são estrangeiros, com costumes diferentes, comidas diferentes – porque eles parecem diferentes. É uma terrível hipocrisia. A mão-de-obra barata é o coração do livre comércio, e a imigração em massa é consequência de guerras imperialistas, terrorismo e livre comércio.
É mais fácil realizar filmes hoje do que há 30, 40 anos?
Em geral, acho que tenho tido muita sorte. Nós temos conseguido levantar dinheiro para fazer filmes de tempos em tempos, porque são produções européias, não americanas. Ainda existe interesse para histórias menos comerciais – fora dos EUA. Mas acho que tem sido mais difícil para jovens diretores.
Já pensou em dirigir um filme nos EUA?
Por quê? Por que eu iria querer dirigir um filme nos EUA? Já filmei um lá [Pão e Rosas, 2000] e foi mais difícil trabalhar em Los Angeles do que na Nicarágua!
Poderia falar um pouco sobre seu ultimo projeto, Route Irish?
Ainda estamos terminando o filme, não quero revelar muito... É sobre ex-soldados ingleses trabalhando para contratantes privados no Iraque.
Algum diretor tem chamado sua atenção no cinema atual?
Muitos dos diretores de que eu gosto são do passado, mas tenho acompanhado o trabalho
dos irmãos Dardenne [Jean-Pierre e Luc Dardenne], da Bélgica, eles têm feito bons filmes... Há outros cineastas também... Gostei muito do filme francês O Profeta [de Jacques Audiard, com previsão de estreia nos cinemas brasileiros em 30 de abril]. Há muitos bons filmes sendo realizados.
O futebol é muito importante para as pessoas no Brasil, esperamos que o filme alcance um público maior com seu lançamento em DVD.
Assim espero! Nós ingleses somos grandes fãs de futebol e vocês também. E não é preciso gostar de futebol para gostar do filme, porque À Procura de Eric é sobre a força da amizade de pessoas que compartilham o mesmo entusiasmo, a mesma paixão por algo em comum.